DESTINO DO MUNDO
No Princípio
Deus criou o universo, não coagido pela necessidade
de uma complementação nem para aumentar sua felicidade,
mas tão somente para estender sua perfeição e
sua felicidade a outros seres.
Como que forçado pelo transbordamento de seu
amor, quis fazer participantes de sua própria glória outros
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seres, principalmente os racionais Quis encher também
outros seres com este foco de infinito amor e de infinita
felicidade, que ó o Ser Divino. O Rio Eterno da plenitude
do Ser transbordou, tornou-se mar e vastidão a envolver
tudo quanto existe e existirá.
Fez participantes de sua perfeição as criaturas, as
quais O imitam em razão da semelhança, ainda que remota,
de sua natureza. Imitam-no em sua atividade pelas
faculdades da mente: a de conhecer, de querer, de amar.
Expo-Universo
Deus criou para apresentar seus valores. E valeu a
pena!
Última finalidade do mundo criado é difundir e alargar
a bondade de Deus e fazer o maior número possível
de seres, participantes desses bens e valores. Cada ser
deles participa segundo sua capacidade, de acordo com a
escala da existência: pedra — planta — animal. A participação
mais perfeita cabe aos seres racionais O aperfeiçoamento
da terra e de seus habitantes, os homens, visa
apenas tornar a terra e a humanidade mais semelhantes a
Deus; i. é., pretende fazê-las participar melhor da perfeição
divina e conseqüentemente de sua felicidade.
E assim o mundo, o universo todo, glorifica o Criador
com sua existência, manifestando em sua natureza a
grandeza de Deus. E as criaturas racionais dão ainda
maior glória a Deus, conhecendo e reconhecendo a beleza
do mundo criado e amando o Deus criador.
O último destino do universo, portanto, é a glória de
Deus.
Vaticano I
Resume tudo o Concílio Vaticano I: “Deus, em sua
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bondade... não para aumentar sua felicidade, nem para
adquiri-la, mas para revelar sua perfeição pelos bens que
comunica às criaturas, criou do nada o mundo, tanto espiritual
como corporal!”.
Essa doutrina conciliar é haurida na:
Escritura:
1. De tudo quanto existe, Deus é fim supremo
Ap 22,13: “Eu sou o alfa e o ômega, o primeiro e o
último, o princípio e o fim”.
Rm 11,36: “Dele e por ele e para ele são todas as
coisas. A ela, a glória pelos séculos”.
Cl 1,16: “porque nele foram criadas todas as coisas,
no céu e na terra, visíveis e invisíveis, tronos e dominações,
principados e potestades, tudo foi criado por ele e
para ele”.
Hb 2,10: “Por quem e para quem existe o universo”.
1Cor. 8,6: “Deus Pai, do qual provêm todas as coisas
e para o qual fomos criados... e Jesus Cristo por
quem tudo existe e por ele também nós”.
1Cor. 15,28: “Quando tudo estiver sujeito (a Deus),
então o próprio Filho se submeterá àquele que tudo lhe
sujeitou: para que Deus seja tudo em todas as coisas”.
2. Deus criou sem precisar de nada, por pura liberalidade
Em linguagem pitoresca, quase brutal, constata o
profeta do A.T.:
Jó 22,3: “Que adianta a Deus se tu és homem honesto?
Qual a vantagem para ele se tu levas uma vida
correta?”
Isaías 1,10: “Para que me trazer inúmeras vítimas?
Estou farto (Tenho tudo quanto quero, com fartura).
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Jesus descreve a situação da criatura perante Deus
(Lc. 17,10): “Tendo cumprido tudo, dizei: somos servos
inúteis; fizemos o que era de nossa obrigação”.
Paulo declara perante os sábios do mundo antigo,
no areópago de Atenas (Atos 17,25): “Deus, que fez o
mundo e tudo quanto nele existe, é o Senhor do céu e da
terra. Ele não habita em templo fabricado por mãos humanas,
nem é servido por mãos humanas, como se de
alguma coisa houvesse precisão, pois é ele que dá a todos
a vida, a respiração e tudo mais”.
3.Deus cria para dar
O livro da Sabedoria (11,23) descreve num texto sugestivo,
repassado de afeto, a situação existencial da criatura
perante Deus: “O universo todo diante de ti é como
um grão de pó na balança, como uma gota de orvalho
matinal... Tu tens compaixão de todos pois, és todopoderoso.
Fechas os olhos aos pecados humanos quando
eles se arrependem. Sim, tu amas a todos os seres que
existem, e não aborreces nenhuma de tuas criaturas...
Perdoas a todos porque são criaturas tuas, ó Senhor, amante
das almas”.
4. Criatura — Imagem de Deus
As criaturas são reflexos de Deus: “speculum Dei”.
Através do mundo criado podemos ver Deus como num
espelho. Espelho imperfeito, é verdade, mas um reflexo
real da natureza divina. Por duas vezes afirma a Escritura
e cognoscibilidade de Deus.
Rm 1,19-24: “o que de Deus se pode saber, bem o
conhecem eles (os homens) porque Deus lhes manifestou.
O que nele há de invisível, contempla-o a inteligência
em suas obras desde a criação do mundo; seu poder eterno
e sua divindade. Mas, embora conhecessem a
Deus, não o glorificaram... Por isso Deus os abandonou à
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impureza e a ídolos falsos”.
Com finas pinceladas de uma miniatura tratou do
problema da fé no criador e no destino humano.
Sabedoria 13,1-9: “Estultos todos os homens nos
quais não se acha o conhecimento de Deus. Que pelos
bens visíveis não chegaram a conhecer aquele que existe.
Nem mesmo considerando suas obras reconheceram
seu criador. Tomaram por deuses, governadores do mundo,
o fogo, o vento, o ar, o giro das estrelas, a água turbulenta
ou os astros do céu. Se, encantados com a beleza
dessas coisas, as julgaram deuses, deveriam entender
quão mais formoso do que elas deveria ser seu dono,
pois, foi o autor da formosura que criou tudo isso. Se eles
se maravilharam de sua força e poder, deveriam também
entender que quem as fez é mais forte, porque, pela
grandeza e formosura das criaturas se percebe, por analogia,
o seu autor. Não se lhes pode desculpar a ignorância,
pois se tiveram tanta inteligência para investigar o
universo cósmico, como não descobriram mais facilmente
o seu senhor?”
5. Criatura é louvor de Deus
Sl 18,2: “Os céus cantam a glória de Deus e o firmamento
proclama a obra de suas mãos”. Se a criatura
irracional não se cansa de cantar o louvor do criador,
quão mais eloqüentemente devem fazê-lo os racionais
Sl 148,2.7.11.12 (o salmista repete incessantemente
seus convites): “Louvai a Deus, ó Anjos... Bendizei a
Deus, poderes do céu... Louvai-o vós, criaturas da terra...
reis, príncipes e povos... jovens, velhos e crianças”. Uma
enciclopédia e resumo de tudo isso é o canto dos três jovens
na fornalha (Daniel 3).
6. Deus exige sua glória
Não dispensa o que é direito do ser absoluto. Isaías
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é dramático (48,11): “Por amor de mim, por amor de mim
o farei... não cedo minha glória a outrem”.
7. Deus pede o amor da criatura
Mais do que nosso louvor Deus deseja o nosso amor.
As páginas da Escritura no-lo dizem e repetem sem
cessar.
Dt 10,12: “E agora, ó Israel, o que Deus pede de ti é
que temas o Senhor teu Deus; que andes nos seus caminhos
e que o ames e o sirvas de todo o teu coração e de
toda a tua alma... Para que sejas feliz... Deus é o dono do
céu e da terra. Ele amou teus pais e te escolheu”.
São Paulo expressa o mesmo pensamento de maneira
concreta e direta (1Cor. 10,31): “Quer comais, ou
bebais, ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a
glória de Deus”.
Tradição
As palavras da Escritura encontram eco nos escritos
dos antigos Padres. Algumas amostras características:
Lactâncio: “O mundo foi feito para nascermos. Nascermos
para reconhecer o criador do mundo e nosso
Deus; reconhecemos para adorar; adoramos para receber
a imortalidade. Recebemos o prêmio da imortalidade a fim
de servir o Sumo Deus e pra sermos sempre o seu reino
eterno”.
Agostinho: “Brada o céu para o céu: Tu me fizeste,
não eu. Clama a terra: Tu me criaste, não eu”.
Jerônimo: “Deus exige louvor não por precisar do
louvor de alguém mas porque o louvor aproveita aos louvadores”.

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