Levando o Amor de Deus ao Mundo

Levando o Amor de Deus ao Mundo
Tudo por um mundo de amor santo

quarta-feira, 10 de abril de 2019

E nós, cristãos, sabemos ainda mais Deus criou o filho de Deus feito homem, para ser o porta-voz universal, da criação. O homem do paraíso recusara a tarefa de ser cantor do mundo. Deus o substituiu, com infinita vantagem nossa, por seu próprio Filho feito homem. E desde o “Glória” nos campos de Belém ressoa, do oriente até ao ocidente, e por toda a eternidade, a música de louvor, gratidão e amor que canta o coração de Jesus.



* CÂNTICO DO SOL
Altíssimo, onipotente, bom Senhor, teus são os louvores,
a glória, a honra e toda bênção. ...
Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas,
especialmente o senhor irmão sol, que clareia o dia
para nós. ...
Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã lua e pelas
estrelas que no céu formaste, preciosas e belas.
Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento, pelo
ar, pelas nuvens, pelo sereno e por todo o tempo, pelos
quais às tuas criaturas dás sustento.
Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água, tão útil,
humilde, preciosa e casta.
Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo, pelo
qual iluminas a noite. E ele é belo, jucundo, robusto e forte.
Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã, a Mãe26
Terra, que nos sustenta e governa, produz frutos diversos,
flores coloridas e ervas. ...
Louvai e bendizei ao meu Senhor.
Rendei-lhe graças e servi-o com humildade.
LOUVAI A DEUS
Inúmeras vezes, vozes angélicas cantam no Livro
Sagrado: “Glória a Deus nas alturas!” todos os dias o povo
de Deus repete: “Glória a Deus nas alturas!”
“Toda criatura deve ser hóstia de louvor” (Hb 13,15).
O livro de Jó traça, com sua maestria poética, um
quadro grandioso das obras do criador onipotente: (38 a
41) apostrofando o pequeno homem. O cântico dos três
jovens repete quarenta e quatro vezes: “louvai a Deus, ó
criaturas todas!”
A criatura irracional louva a Deus por sua existência,
como disse Tertuliano: “toda criatura reza”. Ela oferece
seus préstimos ao culto divino nos sacramentos, nos sacramentais,
no ornato dos altares e dos templos. Melhor,
porem, que tudo isso é o eco que ela provoca no coração
humano: “ó homens, louvai a Deus!” O poema maravilhoso
da criação foi composto para o homem. Só o homem
sabe lê-lo, entende-o e o sente.
A rocha é mais forte do que o homem. O mar é mais
forte do que o homem. A montanha é mais forte do que o
homem. O sol, a árvore, o leão são mais fortes do que o
homem. Mas nem o leão com seu rugido atroador; nem a
árvore gigante com a pujança de suas raízes, troncos e
galhos; nem o sol com a glória de sua luz; nem a montanha
com a altanaria dos seus picos; nem o mar com o
arremesso de suas ondas, nem a rocha com o indefinido
de sua durabilidade... nenhum desses seres é capaz de
conhecer, louvar e amar seu criador. Somente o homem,
feito à imagem de Deus, pode ler ou ao menos soletrar o
27
poema da criação. Diz São Paulo: “O homem foi criado
para ser o louvor de Deus” (Ef, 1,12). Foi criado para louvar,
bendizer e agradecer o dom maravilhoso da existência.
A Voz
Graciosa lenda, do tempo da aurora do mundo, nos
narra o Talmud: Terminada a obra da criação, Deus convidou
os anjos para um giro através desse novo mundo e
pediu-lhes a opinião. Todos se manifestaram cheios de
admiração e louvor pelas maravilhas da onipotência divina.
Somente um deles manteve-se num silêncio estranho
até que Deus o interpelou, perguntando se achava alguma
coisa a criticar ou a corrigir. O anjo, inclinando-se em
profunda adoração, respondeu: “Grande és tu, ó Senhor e
grandes são as tuas obras. Só uma coisa falta; uma voz
consciente, clara, forte, a jubilar sem cessar através desse
universo: Obrigado! Obrigado, Senhor!” Deus sorriu
feliz: “Está previsto”, e criou o homem à sua imagem e
semelhança e o fez dono e porta-voz do universo.
Logos
E nós, cristãos, sabemos ainda mais Deus criou o filho
de Deus feito homem, para ser o porta-voz universal,
da criação. O homem do paraíso recusara a tarefa de ser
cantor do mundo. Deus o substituiu, com infinita vantagem
nossa, por seu próprio Filho feito homem. E desde o
“Glória” nos campos de Belém ressoa, do oriente até ao
ocidente, e por toda a eternidade, a música de louvor, gratidão
e amor que canta o coração de Jesus.
Festival
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Como o Filho de Deus feito carpinteiro em Nazaré, e
com ele, em íntima união, deve agora o cristão, a criatura
redimida, tirar do trabalho cotidiano sua canção de cada
dia, canção de toda vida.
A mãe de família em seus mil afazeres e preocupações
deve estar sempre a cantar: “Louvado seja Deus”. O
técnico, o cientista atrás das retortas do laboratório, e todos
esses inúmeros profissionais humanos, todos devem
cantar o salmo 116: “Louvai a Deus, povos todos, louvai-o
todas as nações.” Política, comércio, indústria, lavoura,
escolas, universidades todos devem compor melodiosa
sonata em louvar a Deus.
São Francisco compôs seu famoso Cântico do Sol.
Mas não há dúvida que o melhor cântico do sol foi a sua
própria vida. A melhor canção, a mais grata ao ouvido de
Deus é a nossa vida humana transformada num louvor de
Deus perene. Até que entoemos nosso “Glória a Deus”
unidos a Ele nas alturas.
Canção
Balbuciamos nós sacerdotes, monges, religiosos,
louvor e gratidão a Deus, recitando os salmos do rei Davi.
Recitamos esses cantos de louvor do povo eleito em união
com o Filho de Deus que desde Nazaré recitou os
salmos em preito e homenagem ao Pai. E junto com ele
terminamos cada salmo, com o estribilho e o remate de
toda a existência humana e de todo o universo: “Glória ao
Pai, Filho, Espírito Santo, por todos os séculos e tempos
sem fim”.
Mistério da fé
O máximo da glória, júbilo, louvor, honra e gratidão,
29
oferece à Santíssima. Trindade o Verbo humanado, na
Santa Ceia, da aurora até o pôr-do-sol, diz o profeta Malaquias
(1,11).
Três vezes feliz o sacerdote, criatura humana, encarregado
de pronunciar, em nome de Cristo: por ele e
com ele e nele é para ti, Pai onipotente, em união com o
Espírito Santo, toda honra e glória. “Toda possível, infinita”.
Devemos começar a pensar nisto desde o início do
rito sacro ao entoarmos o “Glória a Deus nas alturas”.
Música, ornato, flores querem contribuir também, humildes
e mudos, para esta glória de Deus.
Sta. Matilde derrama em fervor sua alma de fogo: “Ó
bom Deus, eu queria, que a cada momento, e sem cessar,
milhares de coros de anjos te louvassem e adorassem...
Queria ter tantos corações quantas estrelas há no
céu, quantos folhas há nas árvores, quantas gotas d’água
há nos mares do mundo, a fim de amar-te sem cessar...”
Apareceu-lhe Jesus dizendo: “Toda essa honra podes
preparar-me, e mais ainda do que desejas”.
Um momento de “suspense”. “Como?” E com olhos
ardentes aguarda a resposta.
Jesus responde: “É só assistir à Santa Missa.” E de
braços abertos sobre o altar, Jesus faz correr seu sangue
de todas as chagas: “Eis as chagas que reconciliam a justiça
do Pai. Todas as graças que a alma perdeu por descuido
ou relaxamento, poderá recuperá-las plenamente,
aproximando-se do Sto. Sacrifício do Altar, que contém a
plenitude das graças”.

domingo, 31 de março de 2019

O mundo que nos rodeia foi dado por Deus para usufruto não para o domínio do homem. Em primeiro lugar, para sustentar sua vida corporal. O decreto divino na manhã da criação é explícito: “Crescei e multiplicai-vos e subjugai a terra” (Gn 1,28).



DESTINO DO HOMEM
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1. O mundo que nos rodeia foi dado por Deus para
usufruto não para o domínio do homem. Em primeiro lugar,
para sustentar sua vida corporal. O decreto divino na
manhã da criação é explícito: “Crescei e multiplicai-vos e
subjugai a terra” (Gn 1,28).
Os anjos não participam dessa finalidade do mundo
material porque são seres incorpóreos, enquanto que as
demais criaturas são o caminho necessário para o homem
chegar ao conhecimento de Deus. O homem depende do
mundo corporal (material) em sua atividade intelectual.
2. O progresso cultural: arte, literatura, técnica, ciência,
tudo isso faz parte do plano divino, desde que esteja
a serviço do bem estar da humanidade e subordinado ao
seu destino eterno. “Deus colocou o mundo ao dispor dos
homens” (Ecl 3,11).
Os valores culturais não são suficientes para servirem
como fim último mesmo em um mundo que não tivesse
um destino sobrenatural. Deus é e fica sempre sendo o
termo absoluto assim como, perante o sol, todas as estrelas
desaparecem.
3. Mas a suprema felicidade do ser “homem”, seu último
fim é: conhecer a Deus e dar-lhe glória. É a mais singular
de nossas tarefas. “Deus nos criou para servirmos
de louvor à sua glória” (Ef 1,12).
O homem está única e exclusivamente orientado para
a glória de Deus. Da parte de Deus, isso não é um egoísmo
antropomorfo, é lógico. “Deus busca sua glória, não
por causa de si mas por nossa causa”, diz a Summa Theologica,
II-II 132, 1,1. E Sto. Agostinho: “Por Ele ser bom é
que nós existimos: Quia bonus est, sumus”.
Louvar a plenitude absoluta da verdade, da bondade,
da beleza, é racional. Ora, Deus é bem absoluto e a
beleza suprema. Ele só pode louvar a quem merece, i.é.,
a si próprio, o Ser Absoluto. É lógico. Igual atitude impõese
à criatura: prestar homenagem, louvor e glória a quem
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merece, a quem de direito. É conseqüência metafísica.
“Toda criatura é de Deus. Algum dia, amanhã ou depois,
terá que estar diante dele e de joelhos” (F. W. Faber)
4. Na ordem natural, o homem participa da natureza
divina de um modo remoto. É imagem de Deus enquanto
é dotado de inteligência e de amor.
Na ordem sobrenatural, a participação atinge um
grau muito superior. Sendo a natureza humana, em sua
substância, elevada a uma participação da natureza divina,
o foi ao ponto de tornar-nos, de um modo real, filhos
de Deus, à semelhança do Filho Unigênito. Recebeu assim
o homem capacidades superiores, um destino bem
mais elevado: o de amar com um amor eterno o bem supremo
que pode existir. Dom gratuito que ultrapassa todos
os recursos da criatura. Toda a humanidade foi criada
para mergulhar na visão beatífica da Divindade, para viver,
ver e amar como o próprio Deus; para ser submergida
na plenitude do Ser. Como retribuir tão grande condescendência,
tão grande amor?
5. A teologia distingue entre glória objetiva e glória
subjetiva. A glória objetiva é a perfeição que os seres refletem
em sua natureza. Quanto mais perfeitos, tanto
maior a glória do criador. Um santo glorifica mais a Deus
do que um cristão medíocre. O Cântico do Sol, de São
Francisco, é a expressão amorosa dessa glória objetiva
de Deus.
A glória subjetiva completa-a, embora não seja indispensável.
Não consta entre os teólogos que Deus não
pudesse criar um mundo composto somente de seres irracionais,
sem os seres racionais, capazes de apreciar a
grandeza das obras divinas.
A escritura encarrega o homem dessa tarefa com
esta belas palavras: “Deus colocou uma luz em suas almas
(nos olhos dos homens) a fim de lhes mostrar a
grandeza de suas obras... para que louvassem seu santo
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nome e publicassem a magnificência de suas obras” (Ecl
17,8ss).
É assim o homem, porta-voz, intérprete da natureza.
As flores desenrolam suas pétalas coloridas implorando
com esta linguagem muda ao homem para que louve a
Deus. Os passarinhos chilreiam desde o amanhecer, como
que entusiasmado o homem a louvar o criador. Foi
nesse sentido que um eremita bateu nas flores com seu
bastão, dizendo: “Calem-se! Já sei o que querem... que
eu louve a Deus em nome de vocês”.
Por maior que seja, entretanto, a glória que a natureza
irracional tribute a Deus é inconsciente, instintiva,
forçada. A criatura irracional é instrumento que não pode
deixar de glorificar o seu autor.
O astro flamejante que traça com vertiginosa rapidez
sua fabulosa trajetória, não sabe o que faz. Não tem
consciência de suas qualidades de pregoeiro da sabedoria
e do poder divinos: obedece cegamente às leis da gravitação.
Desfiando suas plangentes notas à hora do crepúsculo,
o sabiá segue a instintiva inspiração do pequeno
peito. Ignora, porém, que está celebrando a bondade e
real munificência do Pai Celeste.
6. Rugindo pelas estepes siberianas ou pelas florestas
amazônicas, o furacão não sabe que canta a marcha
triunfal daquele que “caminha sobre as asas do vento;
que faz dos vendavais seus mensageiros e dos raios de
fogo os seus ministros” (Sl 103,4).
A Deus, porém, é devida a vassalagem livre e racional.
E quem lhe presta essa homenagem consciente e
voluntária, essa glorificação formal, são, no céu, os anjos;
na terra, a criatura que “pouco abaixo dos anjos foi colocada”
(Sl. 8,8), o homem. O homem, que é capaz de conhecer
e amar. “O homem deve suprir a deficiência da
criatura irracional, servindo-se dela como de escada para
subir até Deus... Assim, o homem não é só o rei da cria25
ção; é também o seu profeta, o seu intérprete; é o sumo
sacerdote que oferece, racionalmente, o preito irracional
das outras criaturas” (H. ROHDEN, Donde para onde, 1934,
pgs. 109-111).
6. Desde a Encarnação é Cristo-homem o fim de toda
a criação, segundo Cl 1,15. O restante da humanidade
adquire o beneplácito e o agrado de Deus na medida em
que participa de Cristo (Rm 8,29).
O mundo é palco, campo, arena do Cristo místico.
Deus quis rematar a criação da humanidade pelo Deus
Encarnado. Deus permitiu o pecado original para dar a
seu Filho predileto mais um título de honra: cruz e redenção.
“Deu-lhe um nome acima de todo nome” (Fl 2,9).
Jesus Cristo, Homem, em toda a vastidão do mundo,
entre todos os anjos e criaturas racionais, é a criatura
mais amada por Deus.

sexta-feira, 22 de março de 2019

No Princípio Deus criou o universo, não coagido pela necessidade de uma complementação nem para aumentar sua felicidade, mas tão somente para estender sua perfeição e sua felicidade a outros seres.



DESTINO DO MUNDO
No Princípio
Deus criou o universo, não coagido pela necessidade
de uma complementação nem para aumentar sua felicidade,
mas tão somente para estender sua perfeição e
sua felicidade a outros seres.
Como que forçado pelo transbordamento de seu
amor, quis fazer participantes de sua própria glória outros
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seres, principalmente os racionais Quis encher também
outros seres com este foco de infinito amor e de infinita
felicidade, que ó o Ser Divino. O Rio Eterno da plenitude
do Ser transbordou, tornou-se mar e vastidão a envolver
tudo quanto existe e existirá.
Fez participantes de sua perfeição as criaturas, as
quais O imitam em razão da semelhança, ainda que remota,
de sua natureza. Imitam-no em sua atividade pelas
faculdades da mente: a de conhecer, de querer, de amar.
Expo-Universo
Deus criou para apresentar seus valores. E valeu a
pena!
Última finalidade do mundo criado é difundir e alargar
a bondade de Deus e fazer o maior número possível
de seres, participantes desses bens e valores. Cada ser
deles participa segundo sua capacidade, de acordo com a
escala da existência: pedra — planta — animal. A participação
mais perfeita cabe aos seres racionais O aperfeiçoamento
da terra e de seus habitantes, os homens, visa
apenas tornar a terra e a humanidade mais semelhantes a
Deus; i. é., pretende fazê-las participar melhor da perfeição
divina e conseqüentemente de sua felicidade.
E assim o mundo, o universo todo, glorifica o Criador
com sua existência, manifestando em sua natureza a
grandeza de Deus. E as criaturas racionais dão ainda
maior glória a Deus, conhecendo e reconhecendo a beleza
do mundo criado e amando o Deus criador.
O último destino do universo, portanto, é a glória de
Deus.
Vaticano I
Resume tudo o Concílio Vaticano I: “Deus, em sua
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bondade... não para aumentar sua felicidade, nem para
adquiri-la, mas para revelar sua perfeição pelos bens que
comunica às criaturas, criou do nada o mundo, tanto espiritual
como corporal!”.
Essa doutrina conciliar é haurida na:
Escritura:
1. De tudo quanto existe, Deus é fim supremo
Ap 22,13: “Eu sou o alfa e o ômega, o primeiro e o
último, o princípio e o fim”.
Rm 11,36: “Dele e por ele e para ele são todas as
coisas. A ela, a glória pelos séculos”.
Cl 1,16: “porque nele foram criadas todas as coisas,
no céu e na terra, visíveis e invisíveis, tronos e dominações,
principados e potestades, tudo foi criado por ele e
para ele”.
Hb 2,10: “Por quem e para quem existe o universo”.
1Cor. 8,6: “Deus Pai, do qual provêm todas as coisas
e para o qual fomos criados... e Jesus Cristo por
quem tudo existe e por ele também nós”.
1Cor. 15,28: “Quando tudo estiver sujeito (a Deus),
então o próprio Filho se submeterá àquele que tudo lhe
sujeitou: para que Deus seja tudo em todas as coisas”.
2. Deus criou sem precisar de nada, por pura liberalidade
Em linguagem pitoresca, quase brutal, constata o
profeta do A.T.:
Jó 22,3: “Que adianta a Deus se tu és homem honesto?
Qual a vantagem para ele se tu levas uma vida
correta?”
Isaías 1,10: “Para que me trazer inúmeras vítimas?
Estou farto (Tenho tudo quanto quero, com fartura).
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Jesus descreve a situação da criatura perante Deus
(Lc. 17,10): “Tendo cumprido tudo, dizei: somos servos
inúteis; fizemos o que era de nossa obrigação”.
Paulo declara perante os sábios do mundo antigo,
no areópago de Atenas (Atos 17,25): “Deus, que fez o
mundo e tudo quanto nele existe, é o Senhor do céu e da
terra. Ele não habita em templo fabricado por mãos humanas,
nem é servido por mãos humanas, como se de
alguma coisa houvesse precisão, pois é ele que dá a todos
a vida, a respiração e tudo mais”.
3.Deus cria para dar
O livro da Sabedoria (11,23) descreve num texto sugestivo,
repassado de afeto, a situação existencial da criatura
perante Deus: “O universo todo diante de ti é como
um grão de pó na balança, como uma gota de orvalho
matinal... Tu tens compaixão de todos pois, és todopoderoso.
Fechas os olhos aos pecados humanos quando
eles se arrependem. Sim, tu amas a todos os seres que
existem, e não aborreces nenhuma de tuas criaturas...
Perdoas a todos porque são criaturas tuas, ó Senhor, amante
das almas”.
4. Criatura — Imagem de Deus
As criaturas são reflexos de Deus: “speculum Dei”.
Através do mundo criado podemos ver Deus como num
espelho. Espelho imperfeito, é verdade, mas um reflexo
real da natureza divina. Por duas vezes afirma a Escritura
e cognoscibilidade de Deus.
Rm 1,19-24: “o que de Deus se pode saber, bem o
conhecem eles (os homens) porque Deus lhes manifestou.
O que nele há de invisível, contempla-o a inteligência
em suas obras desde a criação do mundo; seu poder eterno
e sua divindade. Mas, embora conhecessem a
Deus, não o glorificaram... Por isso Deus os abandonou à
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impureza e a ídolos falsos”.
Com finas pinceladas de uma miniatura tratou do
problema da fé no criador e no destino humano.
Sabedoria 13,1-9: “Estultos todos os homens nos
quais não se acha o conhecimento de Deus. Que pelos
bens visíveis não chegaram a conhecer aquele que existe.
Nem mesmo considerando suas obras reconheceram
seu criador. Tomaram por deuses, governadores do mundo,
o fogo, o vento, o ar, o giro das estrelas, a água turbulenta
ou os astros do céu. Se, encantados com a beleza
dessas coisas, as julgaram deuses, deveriam entender
quão mais formoso do que elas deveria ser seu dono,
pois, foi o autor da formosura que criou tudo isso. Se eles
se maravilharam de sua força e poder, deveriam também
entender que quem as fez é mais forte, porque, pela
grandeza e formosura das criaturas se percebe, por analogia,
o seu autor. Não se lhes pode desculpar a ignorância,
pois se tiveram tanta inteligência para investigar o
universo cósmico, como não descobriram mais facilmente
o seu senhor?”
5. Criatura é louvor de Deus
Sl 18,2: “Os céus cantam a glória de Deus e o firmamento
proclama a obra de suas mãos”. Se a criatura
irracional não se cansa de cantar o louvor do criador,
quão mais eloqüentemente devem fazê-lo os racionais
Sl 148,2.7.11.12 (o salmista repete incessantemente
seus convites): “Louvai a Deus, ó Anjos... Bendizei a
Deus, poderes do céu... Louvai-o vós, criaturas da terra...
reis, príncipes e povos... jovens, velhos e crianças”. Uma
enciclopédia e resumo de tudo isso é o canto dos três jovens
na fornalha (Daniel 3).
6. Deus exige sua glória
Não dispensa o que é direito do ser absoluto. Isaías
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é dramático (48,11): “Por amor de mim, por amor de mim
o farei... não cedo minha glória a outrem”.
7. Deus pede o amor da criatura
Mais do que nosso louvor Deus deseja o nosso amor.
As páginas da Escritura no-lo dizem e repetem sem
cessar.
Dt 10,12: “E agora, ó Israel, o que Deus pede de ti é
que temas o Senhor teu Deus; que andes nos seus caminhos
e que o ames e o sirvas de todo o teu coração e de
toda a tua alma... Para que sejas feliz... Deus é o dono do
céu e da terra. Ele amou teus pais e te escolheu”.
São Paulo expressa o mesmo pensamento de maneira
concreta e direta (1Cor. 10,31): “Quer comais, ou
bebais, ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a
glória de Deus”.
Tradição
As palavras da Escritura encontram eco nos escritos
dos antigos Padres. Algumas amostras características:
Lactâncio: “O mundo foi feito para nascermos. Nascermos
para reconhecer o criador do mundo e nosso
Deus; reconhecemos para adorar; adoramos para receber
a imortalidade. Recebemos o prêmio da imortalidade a fim
de servir o Sumo Deus e pra sermos sempre o seu reino
eterno”.
Agostinho: “Brada o céu para o céu: Tu me fizeste,
não eu. Clama a terra: Tu me criaste, não eu”.
Jerônimo: “Deus exige louvor não por precisar do
louvor de alguém mas porque o louvor aproveita aos louvadores”.

sexta-feira, 15 de março de 2019

DESTINO PARAÍSO TERRESTRE É destino natural do homem a transformação do planeta num paraíso terrestre. Na media do possível, levando- se em conta as contingências biológicas e ecológicas deste planeta solar, o homem deve cultivar sua moradia, seu “habitat”.



1. DESTINO
PARAÍSO TERRESTRE
É destino natural do homem a transformação do planeta
num paraíso terrestre. Na media do possível, levando-
se em conta as contingências biológicas e ecológicas
deste planeta solar, o homem deve cultivar sua moradia,
seu “habitat”.
É o sentido da história que o homem evolua mais e
mais, de um ser puramente animal para um ser racional,
um ente intelectual. É destino do homem desenvolver e
cultivar sempre mais suas qualidades mentais por meio
das quais ele cria e usufrui o que chamamos de cultura:
música, arte, ciência, e faz participar destes bens uma
porcentagem sempre maior de seres humanos. Civilizar,
cultivar, socializar em progressão sempre crescente a família
humana.
Papel importante tem nisto o domínio técnico
que libera o homem das necessidades puramente
biológicas da sobrevivência. Tarefa que a técnica,
em todas as suas modalidades, está cumprindo
cada dia melhor, até chegar a uma automação
completa, à substituição cabal do trabalho humano
pela máquina, deixando ao homem o lazer de
cultivar os três grandes bens naturais: verdade,
bondade e beleza, ou seja, ciência, virtude e arte.
Cultura
Um ideal que deve ser refeito em cada nova geração
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em vista da estabilidade precária da raça, ou, simplesmente
pelo fato de o homem nascer criança. A aquisição
dos bens da cultura e a adaptação social e cultural é uma
tarefa que cada indivíduo tem de realizar através de uma
ação pessoal, com os recursos que a natureza lhe deu,
com seus talentos. E nem todos nascem poetas ou cientistas.
Fato curioso considerar o homem da civilização hodierna
seu melhor passatempo caçar ou pescar, de preferência
na mata virgem, à beira p. ex. do Amazonas. Um
atavismo inveterado da raça este retorno à pré-história
adamítica.
Mas o ideal procurado, é fazer toda a humanidade
participar destes bens de cultura, na medida do possível.
O corpo é parte do homem. É substrato e instrumento
de sua atividade intelectual. É como o chassis de um
auto, que não foi feito para correr a esmo pelas estradas,
mas foi criado para o passageiro. O importante é ele, o
passageiro, poder admirar a paisagem e demais belezas
da terra, do ar e do mar.
Escritura
Gênesis 1: a primeira página da Bíblia, a carta magna
da criação, entrega ao homem a tarefa de “subjugar” a
terra.
Com muita graça exprime-se o Eclesiastes (3,11):
“Deus entregou o mundo ao homem para suas disputas”
(Tradução da Vulgata). “Disputa” não significa apenas,
diálogo, bate-papo, mas pesquisa e uso-fruto técnico do
mundo que nos rodeia, inclusive Lua, Marte e demais colegas
siderais
O texto hebraico do Ecl 3,11 diz melhor ainda: “Deus
entregou o mundo ao coração deles” (a seus caprichos),
“ao seu dispor”.
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TSeriado Adão-EvaT.
Ora, o plano natural, desde o início, i. é., ao menos
para os descendentes de Adão e Eva, foi subordinado a
um destino superior. Talvez o homem pré-histórico, do
qual sobraram alguns ossos, tivesse só um destino natural:
o trabalho no cultivo da terra e, após a morte, uma
felicidade natural em algum paraíso terrestre, felicidade
proporcional a um ser composto de corpo e espírito.
Conosco, série Adão-Eva, Deus criador teve projetos
superiores. Para nós, adamitas, a terra é passagem, trampolim
para um paraíso celeste.
Sabemos pela Revelação que não só a alma, mas
também o corpo terá parte nessa vida sobrenatural. Naturalmente,
a seu modo, glorificado, espiritualizado, mas
sempre realmente corpóreo.
A propósito, uma palavra de Sta. Teresa (Vida 28):
“Só digo que outra coisa não houvesse para deleitar a
vista no céu senão a formosura dos corpos glorificados,
seria grandíssima glória, em especial a humanidade de
Nosso Senhor”. E Teresa viu só o vídeo-tape!
Consolem-se, pois! O burrinho de São Francisco,
nossa pobre besta de carga cá na terra, a labutar de sol a
sol, também vai entrar no céu e sem as orelhas compridas!...
TTerra novaT.
Sendo assim, é provável, ou possível que, a terra
(ou outro planeta mais espaçoso), após a ressurreição
final dos corpos, se torne o novo lar da nova humanidade.
De que maneira, porém, e em que grau, está totalmente
fora de nosso conhecimento. Qualquer sugestão é pura
16
fantasia. 2 Pedro 3,7-14 fala de céu novo e de terra nova.
Mas ignoramos quanto há nisso de sentido literal, quanto
de metáfora.
Certamente é uma idéia pernóstica a de um contemporâneo
up-to-date, a de que também no céu todo mundo
terá de cumprir sua quota diária de trabalho corporal, como
“hobby” ou passatempo depois do café da manhã, p.
ex. trabalhando uma hora na jardinagem, cultivando rabanetes
ou podando roseiras... ao gosto de cada um. Um
absurdo! No céu, com visão direta de Deus, creio que teremos
ocupações mais atraentes do que a de cultivar flores,
ouvir discos, pescar ou, jogar uma partida de futebol!
TO LimboT
De que modo aquela parte da humanidade, que perdeu
a visão beatífica sem culpa pessoal, vai passar a eternidade
não pode estar entregue à fantasia de um Júlio
Verne ou de um Orson Wells. Estou me referindo aos milhões
de crianças mortas sem batismo É provável que
sejam iguais, em número, aos habitantes do céu, pois parece
que, mesmo sem crime, chegam a morrer antes do
parto tantas quantas nascem. E, atualmente, o assassínio
dos inocentes tornou-se um negócio de milhões!...

sexta-feira, 1 de março de 2019

TEOLOGIA DAS REALIDADES CELESTES


TEOLOGIA  DAS  REALIDADES  CELESTES
Manual de Ascética e Mística
Edição PDF revisada por Fl. Castro.
Aparecida, 2004
Pe. João Betting (1906-1986)

HOMENAGEM JUBILAR.
A Publicação deste livro é uma homenagem sincera,
revestida de gratidão e carinho, ao nosso querido Padre
João Betting, por ocasião da celebração do Jubileu de
Ouro de sua Ordenação Sacerdotal, acontecida a 7 de
junho de 1981.
Padre João, aceite esta homenagem dos seus exalunos
de Teologia que nesta data imploram para seu Jubileu
as melhores bênçãos de Deus e a proteção de Nossa
Senhora!
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PE. JOÃO EVANGELISTA BETTING 1906 – 986
Padre João nasceu em Denkingen (Alemanha), em
dezembro de 1906, professou no dia 17 de maio de 1926
e foi ordenado sacerdote em 07 de julho de 1931, vindo
para o Brasil em 1936. Foi o último dos alemães que veio
para cá. Já veio como professor do recém-fundado Seminário
de Tietê, onde ministrou aulas durante vinte e oito
anos. Durante todo esse tempo foi a figura central do corpo
docente.Lecionou quase todas as matérias, mas principalmente
Sagrada Escritura, que era o seu forte.
Dedicou muitas e muitas horas a cuidar da biblioteca
da Província. Era confessor e diretor espiritual de grande
número de nossos estudantes. Era conhecidíssimo em
Tietê, onde passou a maior parte de sua vida, no Brasil.
Muito procurado como confessor, diretor espiritual e também
como benzedor, ficando afamado com suas bênçãos.
Era um místico e foi um professor ”sui generis”.
Escrevia sobre curiosidades e notícias científicas
nas publicações internas da Província e em revistas dedicadas
à espiritualidade. É de sua autoria o livro “Teologia
das Realidades Celestes, manual de ascética e mística”,
editado pela Província. Quando o Seminário Maior foi
transferido para a Raposo Tavares, em São Paulo, o Padre
João foi junto. Foi aí que começaram a manifestar-se
os primeiros sintomas do mal de Parkinson, do qual veio a
falecer.
Foi operado na Alemanha, em 1969, com quase ne5
nhum resultado. Os médicos, vendo o pouco que haviam
conseguido, recomendaram que voltasse logo para o Brasil.
Ele dizia que queria morrer em sua segunda pátria.
Em fins de 1972 foi transferido para o Jardim Paulistano,
de onde, alguns anos depois, passou para a casa de benfeitores
da Congregação: Dona Elizinha e Narciso Sutiro,
sobrinhos do Padre Sotilo. Ela era sua penitente. Diante
das alucinações de perseguições e de envenenamento
que o padre sofria, perguntaram-lhe se queria ir para a
casa dela, o que ele aceitou. O casal, seus filhos e Dona
Ia, trataram do Padre João com todo carinho possível e
cuidado, até a morte.
A doença ia caminhando sempre mais Vivia quase
só sentado numa poltrona. Foi se encurvando cada vez
mais, à maneira de Sto. Afonso, e, por fim, não falava
mais a não ser por sinais Sem se queixar, ficou privado
até do que mais gostava na vida, seus estudos e seus
livros. Mas enquanto foi possível, era um estudioso dedicado
e homem de muita oração.Celebrou missa enquanto
pôde, em seu quarto. Faleceu na tarde de 21 de fevereiro
de 1986. Foi sepultado em Tietê. É venerado pelo povo
da região como um santo (Pe. Víctor Hugo S. Lapenta)(
Da publicação interna: Aqueles que nos precederam.)

Nota do editor
Não foi possível ter acesso ao texto original do autor.
Trabalhei com o texto publicado numa edição particular,
com muitas falhas e erros de transcrição, pois aparentemente
o texto foi datilografado a partir de ditado, sem ter
passado por adequada revisão e sistematização. Com
isso, algumas vezes, procurei recuperar o sentido original
da melhor maneira que me era possível. Esta, pois, não é
uma edição crítica.
O autor às vezes usa estilo bastante telegráfico, que
respeitei, como aliás o fiz a maior parte das vezes, limitando-
me a correções gramaticais. Tomei certa liberdade
na divisão de parágrafos, tendo em vista uma padronização
do texto.
Espero ter assim contribuído para a preservação de
um texto que merece ser conhecido, quando mais não
fosse como testemunha de uma época. Com essa iniciativa
quero prestar uma homenagem ao autor, a quem muito
devo.
Fl. Castro, cssr.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

A Igreja conhece duas vidas, que lhe foram anunciadas por Deus; uma é vivida na fé; a outra, na visão.

Dos Tratados sobre o Evangelho de João, de Santo Agostinho, bispo
 
(Tract. 124, 5.7: CCL 36, 685-687)         (Séc. V)

 
As duas vidas
        A Igreja conhece duas vidas, que lhe foram anunciadas por Deus; uma é vivida na fé; a outra, na visão. Uma, no tempo da caminhada; outra, na mansão eterna. Uma, no trabalho; outra, no descanso. Uma no exílio; outra, na pátria. Uma, no esforço da atividade; outra, no prêmio da contem­plação.
        A primeira é representada pelo apóstolo Pedro; a segun­da, pelo apóstolo João. A primeira desenvolve-se completa­mente sobre a terra até que o mundo acabe, e então encon­trará o fim; a outra prolonga-se para além do fim dos tempos, e nunca acabará no mundo que há de vir. Por isso foi dito a Pedro: Segue-me (Jo 21,19); mas a João diz-se: Se eu quero que ele permaneça até que eu venha, o que te importa isso? Tu, segue-me! (Jo 21,22).
        "Segue-me tu, imitando minha paciência em suportar os males temporais. E ele permaneça até que eu venha, para conceder os bens eternos". Ou ainda mais claramente: "Siga-me a atividade que, a exemplo de minha paixão, já terminou. Mas a contemplação, que apenas começou, per­maneça assim até que eu venha para levá-la à perfeição".
        Portanto, quem segue a Cristo, acompanha-o na santa plenitude da paciência, até à morte. Permanece até a vinda de Cristo, para lhe manifestar a plenitude da ciência. Agora suportam-se os males deste mundo, na terra dos mortais. Depois, contemplaremos os bens do Senhor, na terra dos vivos.
        As palavras de Cristo: Quero que ele permaneça até que eu venha, não devem ser interpretadas como se quisesse dizer: "permanece até o fim" ou "fica assim para sempre", mas "permanece na esperança"; pois o que João representa não atinge agora a sua plenitude, mas apenas quando Cristo vier. Pelo contrário, o que Pedro representa, a quem o Senhor disse: Segue-me, deve cumprir-se agora, para podermos alcançar o que esperamos.
        Contudo, ninguém ouse separar estes dois insignes apóstolos. Ambos se encontravam na situação representada por Pedro e ambos haviam de se encontrar na situação representada por João. No plano do símbolo, Pedro seguiu e João ficava; mas no plano da fé, ambos suportavam os males da vida presente, ambos esperavam os bens da felici­dade futura.
        O que sucedeu com eles, sucede com toda a santa Igreja, esposa de Cristo: também ela lutará no meio das tentações do mundo para alcançar a felicidade futura. Pedro e João representavam as duas vidas, cada um simbolizando uma delas; mas ambos viveram esta vida temporal, animados pela fé, e agora já se alegram eternamente na outra vida, pela contemplação.
        Pedro, o primeiro apóstolo, recebeu as chaves do reino dos céus, com o poder de ligar e desligar os pecados, para que fosse timoneiro de todos os santos, unidos inseparavelmente ao corpo de Cristo, em meio às tempestades desta vida. E João, o evangelista, reclinou a cabeça sobre o peito de Cristo, para exemplo dos mesmos santos, a fim de lhes indicar o porto seguro daquela vida divinamente tranquila e feliz.
        Todavia, não é somente Pedro, mas a Igreja universal, que liga e desliga os pecados. E não é só João que bebe da fonte do coração do Senhor, para ensinar com sua pregação que, no princípio, a Palavra era Deus junto de Deus, e outros ensinamentos profundos a respeito da divindade de Cristo, da Trindade e da Unidade de Deus. No reino dos céus, estas verdades serão por nós contempladas face a face, mas na terra nos limitamos a vê-las como num espelho e obscuramente, até que o Senhor venha. Não foi só ele que descobriu estes tesouros do coração de Cristo, mas a todos foi aberta pelo mesmo Senhor a fonte do evangelho, a fim de que por toda a face da terra todos bebessem dele, cada um segundo sua capacidade.
 http://liturgiadashoras.org/

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Vinde Espírito Santo!

Do Tratado sobre a Trindade, de Dídimo de Alexandria
(Liv. 2,12: PG 39,667-674)         (Séc.IV)
 
O Espírito Santo nos renova pelo batismo
        O Espírito Santo, que é Deus juntamente com o Pai e o Filho, nos renova pelo batismo; e do nosso estado de imperfeição, reintegra-nos na beleza primitiva. Torna-nos de tal forma repletos de sua graça, que não podemos admitir em nós qualquer coisa que não deva ser desejada. Além disso, liberta-nos do pecado e da morte. E de terrenos que somos, quer dizer, feitos do pó da terra, nos faz espirituais, participantes da glória divina, filhos e herdeiros de Deus Pai.
        Faz-nos ainda conformes à imagem do Filho, seus co-herdeiros e irmãos, destinados a ser um dia glorificados e a reinar com ele. Em vez da terra, dá-nos de novo o céu, abre-nos generosamente as portas do paraíso, honra-nos mais do que os próprios anjos. E com as águas divinas do batismo, apaga as imensas e inextinguíveis chamas do inferno.
        Os homens são concebidos duas vezes: uma corporalmente, a outra, pelo divino Espírito. Acerca de um e de outro nascimento, escreveram muito bem os autores sagrados. Citarei o nome e a doutrina de cada um.
        João diz: A todos que o receberam, deu-lhes a capacidade de se tornarem filhos de Deus, isto é, aos que acreditam em seu nome, pois estes não nasceram do sangue nem da vontade da carne nem da vontade do homem, mas de Deus mesmo (Jo 1,12-13).
        Todos os que acreditaram em Cristo, afirma ele, receberam a capacidade de se tornarem filhos de Deus, quer dizer, do Espírito Santo, e participantes da natureza divina. E para ficar bem claro que o Deus que gera é o Espírito Santo, acrescenta estas palavras de Cristo: Em verdade, em verdade, te digo, se alguém não nasce da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus (Jo 3,5).
        A fonte batismal dá à luz de maneira visível nosso corpo visível, pelo ministério dos sacerdotes; mas o Espírito de Deus, invisível a todas as inteligências, é que batiza e regenera simultaneamente o corpo e a alma, pelo ministério dos anjos.
        João Batista, historicamente e de acordo com esta expressão: da água e do Espírito, diz a respeito de Cristo: Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo (Mt 3,11; Lc 3,16).
        Como um vaso de barro, o homem precisa primeiro ser purificado pela água; em seguida, fortalecido e aperfeiçoado pelo fogo espiritual (Deus, com efeito, é um fogo devorador). Precisamos, portanto, do Espírito Santo para nossa perfeição e renovação. Pois o fogo espiritual sabe também regar, e a água batismal é também capaz de queimar como o fogo.