* CÂNTICO DO SOL
Altíssimo, onipotente, bom Senhor, teus são os louvores,
a glória, a honra e toda bênção. ...
Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas,
especialmente o senhor irmão sol, que clareia o dia
para nós. ...
Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã lua e pelas
estrelas que no céu formaste, preciosas e belas.
Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento, pelo
ar, pelas nuvens, pelo sereno e por todo o tempo, pelos
quais às tuas criaturas dás sustento.
Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água, tão útil,
humilde, preciosa e casta.
Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo, pelo
qual iluminas a noite. E ele é belo, jucundo, robusto e forte.
Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã, a Mãe26
Terra, que nos sustenta e governa, produz frutos diversos,
flores coloridas e ervas. ...
Louvai e bendizei ao meu Senhor.
Rendei-lhe graças e servi-o com humildade.
LOUVAI A DEUS
Inúmeras vezes, vozes angélicas cantam no Livro
Sagrado: “Glória a Deus nas alturas!” todos os dias o povo
de Deus repete: “Glória a Deus nas alturas!”
“Toda criatura deve ser hóstia de louvor” (Hb 13,15).
O livro de Jó traça, com sua maestria poética, um
quadro grandioso das obras do criador onipotente: (38 a
41) apostrofando o pequeno homem. O cântico dos três
jovens repete quarenta e quatro vezes: “louvai a Deus, ó
criaturas todas!”
A criatura irracional louva a Deus por sua existência,
como disse Tertuliano: “toda criatura reza”. Ela oferece
seus préstimos ao culto divino nos sacramentos, nos sacramentais,
no ornato dos altares e dos templos. Melhor,
porem, que tudo isso é o eco que ela provoca no coração
humano: “ó homens, louvai a Deus!” O poema maravilhoso
da criação foi composto para o homem. Só o homem
sabe lê-lo, entende-o e o sente.
A rocha é mais forte do que o homem. O mar é mais
forte do que o homem. A montanha é mais forte do que o
homem. O sol, a árvore, o leão são mais fortes do que o
homem. Mas nem o leão com seu rugido atroador; nem a
árvore gigante com a pujança de suas raízes, troncos e
galhos; nem o sol com a glória de sua luz; nem a montanha
com a altanaria dos seus picos; nem o mar com o
arremesso de suas ondas, nem a rocha com o indefinido
de sua durabilidade... nenhum desses seres é capaz de
conhecer, louvar e amar seu criador. Somente o homem,
feito à imagem de Deus, pode ler ou ao menos soletrar o
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poema da criação. Diz São Paulo: “O homem foi criado
para ser o louvor de Deus” (Ef, 1,12). Foi criado para louvar,
bendizer e agradecer o dom maravilhoso da existência.
A Voz
Graciosa lenda, do tempo da aurora do mundo, nos
narra o Talmud: Terminada a obra da criação, Deus convidou
os anjos para um giro através desse novo mundo e
pediu-lhes a opinião. Todos se manifestaram cheios de
admiração e louvor pelas maravilhas da onipotência divina.
Somente um deles manteve-se num silêncio estranho
até que Deus o interpelou, perguntando se achava alguma
coisa a criticar ou a corrigir. O anjo, inclinando-se em
profunda adoração, respondeu: “Grande és tu, ó Senhor e
grandes são as tuas obras. Só uma coisa falta; uma voz
consciente, clara, forte, a jubilar sem cessar através desse
universo: Obrigado! Obrigado, Senhor!” Deus sorriu
feliz: “Está previsto”, e criou o homem à sua imagem e
semelhança e o fez dono e porta-voz do universo.
Logos
E nós, cristãos, sabemos ainda mais Deus criou o filho
de Deus feito homem, para ser o porta-voz universal,
da criação. O homem do paraíso recusara a tarefa de ser
cantor do mundo. Deus o substituiu, com infinita vantagem
nossa, por seu próprio Filho feito homem. E desde o
“Glória” nos campos de Belém ressoa, do oriente até ao
ocidente, e por toda a eternidade, a música de louvor, gratidão
e amor que canta o coração de Jesus.
Festival
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Como o Filho de Deus feito carpinteiro em Nazaré, e
com ele, em íntima união, deve agora o cristão, a criatura
redimida, tirar do trabalho cotidiano sua canção de cada
dia, canção de toda vida.
A mãe de família em seus mil afazeres e preocupações
deve estar sempre a cantar: “Louvado seja Deus”. O
técnico, o cientista atrás das retortas do laboratório, e todos
esses inúmeros profissionais humanos, todos devem
cantar o salmo 116: “Louvai a Deus, povos todos, louvai-o
todas as nações.” Política, comércio, indústria, lavoura,
escolas, universidades todos devem compor melodiosa
sonata em louvar a Deus.
São Francisco compôs seu famoso Cântico do Sol.
Mas não há dúvida que o melhor cântico do sol foi a sua
própria vida. A melhor canção, a mais grata ao ouvido de
Deus é a nossa vida humana transformada num louvor de
Deus perene. Até que entoemos nosso “Glória a Deus”
unidos a Ele nas alturas.
Canção
Balbuciamos nós sacerdotes, monges, religiosos,
louvor e gratidão a Deus, recitando os salmos do rei Davi.
Recitamos esses cantos de louvor do povo eleito em união
com o Filho de Deus que desde Nazaré recitou os
salmos em preito e homenagem ao Pai. E junto com ele
terminamos cada salmo, com o estribilho e o remate de
toda a existência humana e de todo o universo: “Glória ao
Pai, Filho, Espírito Santo, por todos os séculos e tempos
sem fim”.
Mistério da fé
O máximo da glória, júbilo, louvor, honra e gratidão,
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oferece à Santíssima. Trindade o Verbo humanado, na
Santa Ceia, da aurora até o pôr-do-sol, diz o profeta Malaquias
(1,11).
Três vezes feliz o sacerdote, criatura humana, encarregado
de pronunciar, em nome de Cristo: por ele e
com ele e nele é para ti, Pai onipotente, em união com o
Espírito Santo, toda honra e glória. “Toda possível, infinita”.
Devemos começar a pensar nisto desde o início do
rito sacro ao entoarmos o “Glória a Deus nas alturas”.
Música, ornato, flores querem contribuir também, humildes
e mudos, para esta glória de Deus.
Sta. Matilde derrama em fervor sua alma de fogo: “Ó
bom Deus, eu queria, que a cada momento, e sem cessar,
milhares de coros de anjos te louvassem e adorassem...
Queria ter tantos corações quantas estrelas há no
céu, quantos folhas há nas árvores, quantas gotas d’água
há nos mares do mundo, a fim de amar-te sem cessar...”
Apareceu-lhe Jesus dizendo: “Toda essa honra podes
preparar-me, e mais ainda do que desejas”.
Um momento de “suspense”. “Como?” E com olhos
ardentes aguarda a resposta.
Jesus responde: “É só assistir à Santa Missa.” E de
braços abertos sobre o altar, Jesus faz correr seu sangue
de todas as chagas: “Eis as chagas que reconciliam a justiça
do Pai. Todas as graças que a alma perdeu por descuido
ou relaxamento, poderá recuperá-las plenamente,
aproximando-se do Sto. Sacrifício do Altar, que contém a
plenitude das graças”.






